
Via-o como o Sean Connery dos goldens. Talvez um tipo de James Bond dourado, charmoso, já de meia-idade, cheio de manias, enfim, um galã. Esse era o meu (uso esse pronome, porque assim o considero, meu chapa! E sei, Cowbolino, que você nutria o mesmo sentimento por mim!) querido amigo Cowboy.
Ele já era um senhor. E tinha sido aplaudido em pé, ovacionado, quando entrou como veterano na exposição do Kenel Clube São Paulo, em 2003.
E não quero saber da sua história triste antes de vir para o Golden Trip; de como foi abandonado e achado pelo amigo-sócio-irmão, Marcos. Afinal, eu jamais o vi assim. Mesmo nos dias que antecederam o término da sua vida, ele foi alegre, travesso, peralta e guloso. Sim, muito guloso. O maior ladrão de abacates que o sítio da Estrada do Capuava já conheceu. Um gatuno (melhor, cachorruno...) furtivo, que rapinava na calada da noite, quando todos dormiam; daqueles de dar inveja a um Thomas Crown ou ao Brosnan de O ladrão de diamantes.

Embora mancando, ele sempre conseguia alçar voo diretamente ao porta-malas do meu carro.

Cowboy e eu passeamos muito. Fomos às compras, ao shopping, ao parque, à minha casa. Sorrimos, brincamos, jogamos bola. Jamais nos desentendemos, mesmo com as teimosias (manias de um velho cão manhoso...) dele!

Por muito tempo, foi meu fiel escudeiro (e companheiro, naqueles anos de solidão, sem os meus cães e ainda pouco acostumado à solteirice) nas incursões semanais ao Parque Ibirapuera. Ah...como eu me lembro de ver você sempre correndo para debaixo da mesma sombra, abaixo da mesma árvore, perto da Praça do Porquinho! Quantas saudades desses dias em que corria feliz, com a língua de fora, e completamente alvoroçado, sempre com um coco qualquer na boca. Quantas saudades do seu corpinho roliço, gordinho, com a cara esbranquiçada e um rebolar único. Quantas saudades!

Cowboy não seria justamente homenageado, aqui, se não contasse duas marcantes passagens que vivi ao seu lado: a primeira ocorreu quando estávamos no parque, em uma tarde de sol, na presença da minha amiga Luli e meu irmão Perez. Um rapaz se aproximou de nós com o filho, portador da Síndrome de Down. Ele perguntou se o menino podia acariciar o Cowboy. Assenti com a cabeça. A criança - de uns 8 anos - sorriu e o homem começou a chorar compulsivamente. Fiquei quieto. E o pai falou: “- é que ele nunca brincou com cães, porque não podia. Estava em tratamento para a doença da qual se curou recentemente”. Cowboy sorria (tal qual na foto abaixo), como se soubesse que tinha vindo ao mundo com a especial missão de mudar a vida desse garoto. Foi especial.

Um dia cheguei ao sítio do Capuava, onde fica o Golden Trip. Não ia lá havia muito tempo. Cowboy sempre morou ali. Escoltava permanentemente o Fernando, e, na verdade, é preciso dizer isso, jamais conseguiria viver em outro local, sem os seus abacates. Quando entrei não vi o Cowbolino. Onde ele estava? Fernando me apontou para um cão prostrado no alpendre. Eu olhei e o reconheci. Sim, o meu querido gordo feliz estava com 15 anos e adoentado. Mesmo assim, gritei seu nome. E bastou uma vez. Ele pôs seu olho para o alto e reuniu forças sabe-se lá de onde para se levantar. Impulsionou o corpanzil para cima e veio mancando, quase caindo, na verdade titubeando, para junto de mim. Esta é a foto desse dia, que eu pedi para tirarem com o meu celular (e nela está também o Fernando, de quem o Cowboy também tanto gostava):

Alegre, ele recobrou a energia e parecia ter suspirado vida naqueles instantes que passamos juntos. Foram muito preciosos. E foram os últimos. Por 20 ou 30 minutos Cowboy me seguiu e não me largou. Quis ir embora comigo, como se fosse uma vez mais ao parque. Mas, desta vez, não podia levá-lo. Parou o tempo. Vivenciei ali algumas lágrimas e muitos sorrisos. Felicidade efêmera. Estranha e sabidamente efêmera.
Quando o portão fechou, sabia que não o veria mais. Essa foi, de fato, a última vez que nos vimos. Nossa despedida. Alegre, incontida, demorada e amorosa.
Cowboy partiu apenas alguns dias depois.
Tenho saudades, meu amigo.
Um grande beijo.
Com amor,
Alfredo



